Resposta esmagadora <br>em Lisboa
Os trabalhadores aderiram em massa à paralisação convocada ela CGTP-IN fazendo da greve geral do dia 14 de Novembro um momento maior no combate à política das troikas. Durante os milhares de acções de mobilização e esclarecimento realizados nas semanas que precederam a jornada, já se antevia que a adesão seria esmagadora e que milhares e milhares de trabalhadores transformariam a revolta em luta organizada, mostrando haver força para derrotar o pacto de agressão e o Governo que o impõe.
A confirmação veio logo às primeiras horas de anteontem, com o encerramento do Metropolitano e a paralisação do Porto de Lisboa, bem como o cancelamento da maioria dos voos no Aeroporto da Portela e os fortes constrangimentos na actividade em resultado da participação esmagadora dos trabalhadores, com destaque para os afectos à manutenção (100 por cento).
A ANA fez deslocar bombeiros do Aeroporto de Faro para substituir o contingente dos Sapadores (nos turnos nocturno e diurno, a adesão no RSB foi de 84 e 91 por cento, respectivamente), facto que levou o Sindicato dos Trabalhadores do Município a apresentar queixa junto da Autoridade para as Condições de Trabalho e a notar que a medida representava um «gravíssimo risco para os voos e para as pessoas e bens».
Na CP Carga (100 por cento), na EMEF (80 por cento) e nas linhas suburbanas da CP, a partir da meia-noite, nem sequer a totalidade das composições decretadas como serviços mínimos circularam, salientou a Fectrans. Neste último caso, os piquetes de greve colocados entre Cais do Sodré e Cascais, e entre Azambuja e Sintra durante a madrugada e início da manhã, constataram não estarem reunidas as condições mínimas de circulação, mas a intervenção da polícia acabou por proteger a empresa, embora, observou o Avante!, o número de pessoas que aguardavam pelos comboios fosse muitíssimo menor que em anteriores paralisações, atestando, uma vez mais, a poderosa greve geral em curso.
Intimidação a favor do patrão
Uma adesão global de 85 por cento na Carris, excluindo serviços mínimos, é, igualmente, um indicador significativo do que se passou. A contribuir para tal, a intensa acção de esclarecimento levada a cabo pelos piquetes sindicais, isto apesar do Governo tentar «intimidar os trabalhadores, particularmente do sector dos transportes, com a deslocação de esquadrões da polícia de choque», denunciou Arménio Carlos.
Para o secretário-geral da CGTP-IN, a mobilização das forças repressivas denotava, «um Governo nervoso», disse, antes de considerar «inadmissível» a intervenção da polícia que decorria na Musgueira, onde um membro do piquete acabou detido, e na Vimeca, em Queluz de Baixo, onde outros dois foram agredidos.
«Não é pela intimidação e repressão que vão pôr em causa o direito à greve. Reafirmamos que os trabalhadores não deixarão de dar a resposta devida a esta provação do Governo, que está numa situação de desespero e que procura pela via da força impor a sua posição», afirmou em declarações à Lusa.
Parados para o País avançar
No público e no privado e em diversos sectores e ramos de actividade, a greve geral foi erguida registando níveis de participação históricos, segundo dados fornecidos pelos sindicatos. Os efeitos foram evidentes.
Na maioria das autarquias do distrito, a limpeza urbana e recolha de resíduos sólidos, sobretudo, mas também as oficinas de manutenção, os serviços administrativos e de atendimento ao público, entre outros locais de trabalho, encontravam-se encerrados ou a funcionar francamente abaixo das respectivas capacidades, facto que foi ainda visível em muitas dependências da administração central (Finanças, Segurança Social, ministérios, etc) e empresas e serviços públicos, como a Imprensa Nacional, com adesões à greve de 100 e 91 por cento no 1.º e 2º turnos, ou os correios, onde os centros operacionais estiveram inertes e a distribuição postal interrompida.
No sector da saúde, a paralisação de enfermeiros (com níveis de adesão entre os 60 e os 100 por cento), auxiliares e administrativos (com adesões a rondar os 80 e os 100 por cento), particularmente, mas também de alguns médicos, provocaram a ruptura dos serviços hospitalares, bem como em muitos centros e extensões de saúde. Nos hospitais do SAMS e Lusíadas, a greve foi notada. Na Maternidade Alfredo da Costa, Hospital Dona Estefânia, Curry Cabral, Capuchos, Pulido Valente, São José, Santa Cruz, Santa Marta e no Instituto de Medicina Legal (só funcionaram os serviços mínimos); nos hospitais Amadora-Sintra, de Vila Franca, Torres Vedras e no INEM, foi de grande fôlego.
Cenário de paralisação praticamente total verificou-se também no ensino. Isso mesmo constata-se pelas inúmeras escolas dos diversos ciclos e jardins-de-infância de portas fechadas no distrito, levando o secretário-geral da Fenprof, Mário Nogueira, a considerar o cumprimento desta greve geral no sector num patamar duas a três vezes superior à anterior, e a qualificar como «a excepção» os estabelecimentos em funcionamento.
No sector particular e cooperativo, nomeadamente em muitas IPSS, os trabalhadores também pararam sabendo que, com isso, estavam a contribuir para que o País avance, interrompendo o ciclo pernicioso de aumento da exploração dos trabalhadores e empobrecimento da generalidade do povo, ruína e dependência do País, razões que estiveram na base da paralisação de todos ou da imensa maioria dos trabalhadores da indústria, com destaque para o que se verificou na Hydroportalex, Boch-Travões, Udifar II, Saint-Gobain, Europack, CT Cobert Telhas, Acral, Exide-Tudor, Centralcer, Sotancro, Tempo-Team, Panificadora APOPOL, Continete-Cascais Shoping ou Abrigada.
A compor o cenário de uma grande greve, também na cultura os trabalhadores forçaram o cancelamento de espectáculos e visitas a monumentos, nomeadamente no teatros São Luiz, Nacional D. Maria II, Cornucópia, Comuna, Maria Matos, CCB e Aberto, e no Castelo de São Jorge, Museu do Fado, Padrão dos Descobrimentos, casa fernando Pessoa ou Museu das Marionetas.